Entrevista com o ativista Altamiran Ribeiro sobre a portaria do trabalho escravo e outros temas
Blog Catinga-de-Porco entrevistou o grande ativista Altamiran Ribeiro, confira.
Perguntas:
- Altamiran, qual sua opinião sobre a Portaria 1.129/2017 que estabelece novas regras para caracterização de trabalho análogo ao escravo, portaria do Ministério do Trabalho?
"É Lamentável ver que neste atual governo o Brasil passe a dar passos para trás como é o caso desta portaria. E o pior é que ela revoga uma lei de cunho Internacional com uma portaria é o cúmulo da ignorância política do planalto que governa o nosso país. A lei revogada pela portaria serviu de referência no mundo no combate ao trabalho escravo contemporâneo. Se olharmos bem essa portaria ela quase revoga o decreto da Princesa Isabel que aboliu a escravatura no país, e vai contra a atual Constituição Federal. O governo fala que a portaria é um avanço para o país, mais se olhar melhor ou parar para pensar vai perceber que - 'é avanço ver homens e mulheres trabalhando com jornadas exaustivas, sem direito a receber salários, privado do direito de ir e vir, sendo tratado como um bicho ou até mesmo mortos como já aconteceu?'. Somente um grupo ganha com a portaria, o agronegócio que precisar escravizar para lucrar ainda mais, pois mais 80% de pessoas libertadas como escravos estão nas fazendas de gado, soja e outros monocultivos.
- O que os movimentos tem feito para barrar essa portaria?
"Estamos hoje em Brasília no embate contra essa imoralidade que é essa portaria. Apesar dela ter sido suspensa ontem pelo STF não é sinal de garantia que será de vez abolida, ela está apenas suspensa."
- Como está os trabalhos na CPT e suas lutas sociais no geral?
"Estão bem desafiadores, nos últimos dois anos tenho assumido a frente de organizações sociais na defesa dos povos do cerrado do Piauí. Muita gente tem um olhar para o cerrado apenas para a produção de monocultivos, e acham bonito as máquinas que plantam e colhem, ver belos campos plantados, se empolgam com os belos números divulgados pela mídia. Mas há por trás dessa beleza toda uma realidade real que ninguém mostra, que são as comunidades sendo expulsas de suas terras, rios e riachos contaminados pelos agrotóxicos jogados nas grande lavouras, rios e riachos secando por causas das mortes das nascentes para dar lugar a plantios de soja e outro monocultivos, pessoas ameaçadas de morte por resistirem no seu lugar de origem. A situação do cerrado do Piauí hoje é tão complexa e perigosa quanto a do sul do Pará. No início do mês de setembro uma Comitiva com mais de 10 países estive verificando in loco nossas denúncias tanto na linha ambiental como na violação dos direitos humanos. Com isso estou indo a Alemanha e a Washington, Suécia e Holanda pra formalizar essas denúncias nos governos e na ONU."
Sobre Altamiran Ribeiro:
Natural de Amarante (PI), há mais de 30 anos cristino-castrense de coração, fortemente engajado em lutas sociais relevantes como o direito à terra, combate ao trabalho escravo, direitos das crianças e adolescente, etc. Foi conselheiro tutelar em Cristino Castro. Atualmente faz parte da Comissão Pastoral da Terra - Piauí, estudante do curso Educação do Campo (Ufpi). Integra também o movimento Articulação Piauiense dos Povos Impactados pelo Matopiba (Apim) que recentmente lançou o documento " Nota Pública: ameaças e violência em comunidades do Cerrado Piauiense".

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